4 de outubro de 2016

O futuro da fala brasileira


Elaborei cálculos estatísticos complexíssimos baseados em dados consistentes secretamente coletados a partir da fala brasileira. Minhas constatações e projeções para daqui a 100 anos são as seguintes:

1. O pronome oblíquo "te"

A frase "vou te seguir na rede social" vai se transformar em "vou seguir você na rede social". "Eu te digo" vai virar "eu digo pra você" no modo informal, e "eu digo a você" no formal.

O uso do "te" vem minguando aos pouquinhos e a continuar assim vai desaparecer do colóquio. Talvez ainda resista por um pouco mais de tempo entre os gaúchos e catarinenses.


2. A competição entre "a gente" e "nós"

Os resultados foram parcialmente inconclusivos. Na certa, "a gente" vai continuar a se tornar mais e mais aceito até encontrar lugar na verbalização formal.

Quanto a "nós", ainda não foi possível afirmar se deixará de existir. O possessivo "nosso" vai continuar a ser empregado, junto com "da gente", que vai ter amplo acolhimento.


3. O plural

Interessantemente, o plural vai voltar. O que vinha acontecendo no falar vernáculo à semelhança do francês — em que apenas os artigos são pronunciados no plural — está sofrendo uma inversão de tendência, e agora o plural vai ganhar mais e mais força até se tornar padrão novamente. "Os carro está aqui" vai virar "os carros estão aqui".


4. A competição entre o imperativo da 2ª e 3ª pessoa

Essa é outra propensão curiosa. O uso do imperativo que concorda com "você", como "ande", "faça" e "beba", não está decrescendo como se poderia imaginar. Ao invés, está ganhando mais espaço, ainda que a conta gotas. De modo que, a continuar assim, o imperativo da 3º pessoa vai se fortalecer no falatório formal.

Já no meio informal, ainda não se pode dizer se vai ser contaminado pelo "ande", "faça" e "beba". Isso está nebuloso. Também ainda é cedo para apontar um rumo para a região nordeste, que costuma empregar esse imperativo mesmo na conversa informal. Certo é que a projeção para todas as regiões é de que a ordem ou pedido na 3ª pessoa se apodere do ambiente formal.


5. A colocação pronomial

Inconclusivo. Não há ainda movimentos consolidados. É claro que o brasileiro de maneira geral prefere a próclise, mas o fato de ele ter substituído majoritariamente o pronome oblíquo pelo pronome reto acaba criando um efeito enclítico. Assim, tem se usado "peguei ela (a chave) e saí". Portanto, o caso ainda precisa de mais estudos.

3 de outubro de 2016

Tanto o prefeito quanto o vereador em quem votei ganharam. É perturbador.

1 de outubro de 2016

Vem aí a Nova Almeida Atualizada

Excelente notícia, a Sociedade Bíblia do Brasil (SBB) vem trabalhando desde 2013 numa revisão da sua popular tradução Almeida Revista e Atualizada (ARA), e há cerca de um mês publicaram a primeira versão desse projeto, contendo o Novo Testamento, Salmos e Provérbios (está disponível para aquisição aqui). Até então fazia 60 anos que a ARA não sofria uma revisão profunda, a não ser reformulações pontuais na forma e em alguns poucos arcaísmos.

A edição final e completa está prevista para ser publicada em 2018.

De acordo com informação do próprio site:

Com a colaboração das igrejas cristãs, a revisão está em andamento e foi batizada de Nova Almeida Atualizada. [..]. As principais melhorias estão sendo feitas com o objetivo de tornar o texto mais compreensível. Entre elas, destacam-se:
  •  Redução da extensão das frases, sempre que possível (mais pontos e menos pontos e vírgula).
  •  Os termos da frase foram colocados na ordem natural do Português (sujeito antes do verbo).
  •  Construções complicadas e de pouco uso, como é o caso de mesóclises do tipo “dir-lhes-ei”, foram refeitas.
  •  Palavras difíceis, como “irrisão” e “prevaricar”, foram substituídas por termos mais simples.
A mudança que deverá chamar mais a atenção, inicialmente, é a passagem do “tu” e “vós” para “você” e “vocês”, com exceção das orações ou palavras dirigidas a Deus, em que se preserva o “tu”. O maior desafio desse trabalho tem sido fazer com que, mesmo atualizado para o português escrito no Brasil do Século 21, o texto mantenha a sonoridade de Almeida. Publicada com exclusividade pela Sociedade Bíblica do Brasil, a RA possui uma série de diferenciais, entre os quais se destacam sua fidelidade aos textos originais, sua linguagem atualizada sem abrir mão do vocabulário e sintaxe eruditos, sua riqueza de estilos literários, além de sua legibilidade e sonoridade. Todos esses predicados, tão apreciados pelo leitor da Bíblia, continuam presentes na Nova Almeida Atualizada.

MAS NEM TUDO SÃO FLORES...

Aparentemente eles optaram pelo formato de textos em grandes blocos, separados por parágrafos (à semelhança da NVI ou da NTLH) em vez da tradicional separação de texto por versos. Céus, é tão melhor de se ler no formato "clássico".

Ei, senhores editores da SBB, se estiverem lendo isto, por favor, abandonem os blocões e voltem ao padrão tradicional, ao melhor estilo da redação legal — imagine como seria difícil a leitura de uma lei em grandes parágrafos de texto em vez de artigos e divisões bem pontuadas. Esse tipo de formato é uma evolução da escrita, deixa o texto muito mais agradável e fácil de memorizar.

PS: Já cheguei a enviar e-mails para os editores da NVI, além de uma grande editora, pedindo para que publicassem uma NVI com texto separado por versos, mas nem se deram ao trabalho de responder... Enfim, um dia hei de conseguir um exemplar da NVI ou da Nova Almeida Atualizada no bom e velho formato tradicional.