5 de dezembro de 2016

O pensamento econômico liberal é contra-intuitivo. Acho difícil que ele se propague, é impopular. Eu mesmo, durante grande parte da minha vida, raciocinava de acordo com o que me parecia óbvio, que o governo deveria prover grandes serviços e ser dono de grandes empresas.

Afinal quem iria querer pagar por alguma coisa quando se imagina que ela poderia ser dada gratuitamente pelo governo? Mas e a corrupção nos serviços públicos? A culpa é dos que não souberam votar por causa da injustiça social, basta criar mais leis. Isso causa problemas urbanos? Então, mais obras, mais regulações, mais restrições individuais. Desigualdade social elevada? Temos que criar mais impostos para que os ricos fiquem pobres também. Há muitos pobres? Eles precisam de mais serviços públicos de "qualidade". Há muito desemprego e informalidade? Precisamos que o governo empregue mais gente. A economia não cresce? É necessário estímulos com obras públicas faraônicas. O governo não tem dinheiro? Pegue emprestado. A dívida está alta? Dê o calote nos credores rentistas. Ninguém mais empresta para o governo? Imprima dinheiro! Inflação? Criem leis para congelar os preços. Crise de abastecimento, falta remédio e comida? A culpa é dos gananciosos empresários, devemos tomar tudo deles e entregar para o bondoso governante e seus comparsas.

22 de novembro de 2016

Insight sob pressão

Quantas vezes fui indagado sobre alguma coisa relacionada à Bíblia e do além me caiu uma resposta pontual e perspicaz, algo que eu dificilmente teria concluído em condições normais de temperatura e pressão.

4 de novembro de 2016

O propósito justo de todas as coisas

Tudo o que ocorre no universo não se dá ao acaso. O acaso não existe. A livre-agência humana já é pré-conhecida, logo, tudo quanto fazemos já foi previsto e será usado como instrumento para que todas as coisas se encaixem perfeitamente no justo propósito de Deus. Por isso declara a Escritura:
O Senhor faz tudo com um propósito; até os ímpios para o dia do castigo. Provérbios 16:4. 
Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade. Efésios 1.11. 
Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu. Eclesiastes 3.1. 
Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Mateus 10.29,30. 
Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Romanos 8.28.

A contingência das ações humanas também está presente. Está numa zona cinzenta entre o determinismo e o indeterminismo. As escolhas do homem são sempre certas e incertas, fatais e não-fatais, contingentes e inevitáveis. Não por outra razão, as Sagradas Letras asseveram também:

Ele lhes disse: "A vocês foi dado o mistério do Reino de Deus, mas aos que estão fora tudo é dito por parábolas, a fim de que, ‘ainda que vejam, não percebam, ainda que ouçam, não entendam; de outro modo, poderiam converter-se e ser perdoados! ’". Marcos 4.11,12. 
Não foi você mesma a responsável pelo que lhe aconteceu, ao abandonar o Senhor, o seu Deus? Jeremias 2.17. 
Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam. Deuteronômio 30.19.

E devemos nos lembrar: seja aqui, seja nos céus, Deus é justo e misericordioso:

O Senhor é misericordioso e justo; o nosso Deus é compassivo. Salmos 116.5.

4 de outubro de 2016

O futuro da fala brasileira


Elaborei cálculos estatísticos complexíssimos baseados em dados consistentes secretamente coletados a partir da fala brasileira. Minhas constatações e projeções para daqui a 100 anos são as seguintes:

1. O pronome oblíquo "te"

A frase "vou te seguir na rede social" vai se transformar em "vou seguir você na rede social". "Eu te digo" vai virar "eu digo pra você" no modo informal, e "eu digo a você" no formal.

O uso do "te" vem minguando aos pouquinhos e a continuar assim vai desaparecer do colóquio. Talvez ainda resista por um pouco mais de tempo entre os gaúchos e catarinenses.


2. A competição entre "a gente" e "nós"

Os resultados foram parcialmente inconclusivos. Na certa, "a gente" vai continuar a se tornar mais e mais aceito até encontrar lugar na verbalização formal.

Quanto a "nós", ainda não foi possível afirmar se deixará de existir. O possessivo "nosso" vai continuar a ser empregado, junto com "da gente", que vai ter amplo acolhimento.


3. O plural

Interessantemente, o plural vai voltar. O que vinha acontecendo no falar vernáculo à semelhança do francês — em que apenas os artigos são pronunciados no plural — está sofrendo uma inversão de tendência, e agora o plural vai ganhar mais e mais força até se tornar padrão novamente. "Os carro está aqui" vai virar "os carros estão aqui".


4. A competição entre o imperativo da 2ª e 3ª pessoa

Essa é outra propensão curiosa. O uso do imperativo que concorda com "você", como "ande", "faça" e "beba", não está decrescendo como se poderia imaginar. Ao invés, está ganhando mais espaço, ainda que a conta gotas. De modo que, a continuar assim, o imperativo da 3º pessoa vai se fortalecer no falatório formal.

Já no meio informal, ainda não se pode dizer se vai ser contaminado pelo "ande", "faça" e "beba". Isso está nebuloso. Também ainda é cedo para apontar um rumo para a região nordeste, que costuma empregar esse imperativo mesmo na conversa informal. Certo é que a projeção para todas as regiões é de que a ordem ou pedido na 3ª pessoa se apodere do ambiente formal.


5. A colocação pronomial

Inconclusivo. Não há ainda movimentos consolidados. É claro que o brasileiro de maneira geral prefere a próclise, mas o fato de ele ter substituído majoritariamente o pronome oblíquo pelo pronome reto acaba criando um efeito enclítico. Assim, tem se usado "peguei ela (a chave) e saí". Portanto, o caso ainda precisa de mais estudos.

3 de outubro de 2016

Tanto o prefeito quanto o vereador em quem votei ganharam. É perturbador.

1 de outubro de 2016

Vem aí a Nova Almeida Atualizada

Excelente notícia, a Sociedade Bíblia do Brasil (SBB) vem trabalhando desde 2013 numa revisão da sua popular tradução Almeida Revista e Atualizada (ARA), e há cerca de um mês publicaram a primeira versão desse projeto, contendo o Novo Testamento, Salmos e Provérbios (está disponível para aquisição aqui). Até então fazia 60 anos que a ARA não sofria uma revisão profunda, a não ser reformulações pontuais na forma e em alguns poucos arcaísmos.

A edição final e completa está prevista para ser publicada em 2018.

De acordo com informação do próprio site:

Com a colaboração das igrejas cristãs, a revisão está em andamento e foi batizada de Nova Almeida Atualizada. [..]. As principais melhorias estão sendo feitas com o objetivo de tornar o texto mais compreensível. Entre elas, destacam-se:
  •  Redução da extensão das frases, sempre que possível (mais pontos e menos pontos e vírgula).
  •  Os termos da frase foram colocados na ordem natural do Português (sujeito antes do verbo).
  •  Construções complicadas e de pouco uso, como é o caso de mesóclises do tipo “dir-lhes-ei”, foram refeitas.
  •  Palavras difíceis, como “irrisão” e “prevaricar”, foram substituídas por termos mais simples.
A mudança que deverá chamar mais a atenção, inicialmente, é a passagem do “tu” e “vós” para “você” e “vocês”, com exceção das orações ou palavras dirigidas a Deus, em que se preserva o “tu”. O maior desafio desse trabalho tem sido fazer com que, mesmo atualizado para o português escrito no Brasil do Século 21, o texto mantenha a sonoridade de Almeida. Publicada com exclusividade pela Sociedade Bíblica do Brasil, a RA possui uma série de diferenciais, entre os quais se destacam sua fidelidade aos textos originais, sua linguagem atualizada sem abrir mão do vocabulário e sintaxe eruditos, sua riqueza de estilos literários, além de sua legibilidade e sonoridade. Todos esses predicados, tão apreciados pelo leitor da Bíblia, continuam presentes na Nova Almeida Atualizada.

MAS NEM TUDO SÃO FLORES...

Aparentemente eles optaram pelo formato de textos em grandes blocos, separados por parágrafos (à semelhança da NVI ou da NTLH) em vez da tradicional separação de texto por versos. Céus, é tão melhor de se ler no formato "clássico".

Ei, senhores editores da SBB, se estiverem lendo isto, por favor, abandonem os blocões e voltem ao padrão tradicional, ao melhor estilo da redação legal — imagine como seria difícil a leitura de uma lei em grandes parágrafos de texto em vez de artigos e divisões bem pontuadas. Esse tipo de formato é uma evolução da escrita, deixa o texto muito mais agradável e fácil de memorizar.

PS: Já cheguei a enviar e-mails para os editores da NVI, além de uma grande editora, pedindo para que publicassem uma NVI com texto separado por versos, mas nem se deram ao trabalho de responder... Enfim, um dia hei de conseguir um exemplar da NVI ou da Nova Almeida Atualizada no bom e velho formato tradicional.

20 de setembro de 2016

É quase um protocolo internacional, se há alguma reunião de cúpula, vai aparecer algum burocrata criticando o protecionismo alheio.

12 de setembro de 2016

Como é empreender no Brasil

Por Rafael Rosset (com adaptações).

Você vai gastar em média 2.600 horas por ano apenas para recolher os impostos, que vão incidir sobre o seu investimento antes que você tenha qualquer lucro.

Em média, 40% do seu investimento vai para o governo. E, claro, ocasionalmente seus funcionários vão processar você e sabe-se lá o que vai decidir o juiz do trabalho, que já presume que você é maligno e o seu funcionário é um anjo.

Vai ser também constantemente fiscalizado e esporadicamente autuado por conta do descumprimento de alguma obrigação acessória que nem seus advogados tributaristas e trabalhistas sabiam que existia, mas que lhe renderá uma multa de 150%, além de juros de 1% ao mês e correção monetária.

Depois de 3 anos, há 80% de chance de você estar falido, e com sua casa, carro e o que quer que tenha sobrado de seu capital inicial ameaçado por execuções fiscais e trabalhistas.

Mas o pior ainda está por vir.

Em vez de ser visto como alguém que gera riqueza para todos, dá empregos e sustenta o país, você será tratado como criminoso pela sociedade e pelo governo e será culpado por tudo o que der errado no país.

30 de agosto de 2016

Curioso como Regimentos Internos tenham que frequentemente ser consultados e usados por cidadãos externos ao órgão público.

29 de agosto de 2016

A prédica e o poder do Espírito

Paulo de Tarso, como se sabe, foi um grande teólogo, inspirado divinamente a escrever grande parte do Novo Testamento. Também foi um grande missionário, plantando igrejas e cuidando delas em regiões diversas. Mas além disso, quando ele esteve em Éfeso, sucedeu o seguinte:
Deus fazia milagres extraordinários por meio de Paulo, de modo que até lenços e aventais que Paulo usava eram levados e colocados sobre os enfermos. Estes eram curados de suas doenças, e os espíritos malignos saíam deles. Atos 19.11,12.
Não só em Éfeso, mas anteriormente, quando pregou na cidade de Listra, outro feito divino extraordinário foi operado:
Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: "Levante-se! Fique de pé! " Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. Atos 14.8-10.
A passagem de Paulo por Tessalônica parece não ter sido diferente, pois quando ele escreve a eles, comenta:
Porque o nosso evangelho não chegou a vocês somente em palavra, mas também em poder, no Espírito Santo e em plena convicção. 1Tessalonicenses 1.5a.
À igreja de Corinto, o apóstolo é ainda mais enfático:
Minha mensagem e minha pregação não consistiram de palavras persuasivas de sabedoria, mas consistiram de demonstração do poder do Espírito, para que a fé que vocês têm não se baseasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus. 1Coríntios 2.4,5.
Por isso, insisto que, biblicamente, não existe separação entre operação de prodígios em nome do Senhor e bom ensino bíblico.

Bem, sei que o que se vê nos dias atuais são, de um lado, alguns poucos operando curas em Cristo e com um ensino pouco contundente das Escrituras, e, de outro, alguns pregando com sabedoria bíblica, mas com pouquíssima demonstração de poder do Alto. Porém, o fato de haver aparente dissociação entre esses feitos, não muda a verdade exposta na Escritura de que na narrativa neotestamentária eles costumam aparecer juntos.

Alguém pode argumentar que o Espírito distribui diferentes dons aos santos conforme lhe apraz — quem gosta de se justificar pela falta de milagres usa bastante essa muleta —, todavia, o problema persistiria porque tais dons não têm operado em conjunto na mesma igreja, mas em contextos e lugares muito distintos.

Claro, não quer dizer, nem de longe, que por meu intermédio pudessem ser replicadas as realizações de Atos. Mas buscando estas coisas no Senhor, de acordo com a completude bíblica, estou convencido de que o poder do Espírito deve se manifestar ao lado da pregação eloquentemente bíblica. E não só isso, creio convictamente que cedo ou tarde ambos vão ser realizados conjuntamente pelo Espírito Santo no nosso meio para a glória de Deus Pai.

23 de agosto de 2016

Sobre o avanço progressista no ocidente

Ao que tudo indica essa afluência é irreversível, o progressismo é o zeitgeist do mundo ocidental, especialmente na Europa, Canadá, Argentina, Uruguai e caminha a passos largos nos EUA. Parece que este vai ser o tom desta época, a religião ocidental do século 21.

No Brasil, nem tanto. Por aqui ainda é incipiente, apesar de barulhento. Mas a observação comum mostra que tem tido certa aceitação.

Confesso que muitas vezes, no fundo, eu me pego torcendo para que nos países ricos ocidentais, a ideologia progressista avance ainda mais. Assim, nós cristãos brasileiros, africanos e orientais nos gloriaríamos em Cristo, enquanto eles se vangloriariam no humanismo.

Contudo, não posso desejar isso a ninguém, bem sei, nem para os europeus nem para os americanos do norte. Aliás, grande parte da propagação do Evangelho no Brasil e no mundo se deve ao trabalho de alguns países europeus protestantes e principalmente a esforços missionários americanos. Por isso, é lamentável que eles queiram se tornar senhores de si, rejeitando o senhorio de Jesus depois de tantos séculos da história cristã. Que haja arrependimento e que todos nos voltemos para Deus.

19 de agosto de 2016

Campo Verde, 19 de agosto de 2016



Mestre mui amado,


Escrevo de uma terra longínqua, bem distante da Galileia onde você pisou. Ainda assim tenho ouvido por estas bandas incontáveis notícias sobre seus feitos. Muitos têm por você uma consideração sem igual. E por tudo que vi, escutei e li a seu respeito, desejei muito conhecer você face a face. Porém no ano em que nasci, você há muito havia partido para a casa de seu Pai. Nem mesmo pude encontrar os que com você caminharam, que viram você de pertinho, pois já haviam entrado no descanso eterno.

Os seus aprendizes, entretanto, legaram uma mensagem dizendo que você havia dado instruções expressas para que todos guardássemos as suas palavras até que você retornasse. E tenho tentado fazê-lo, mas por vezes fraquejado.

Rabi! Quem dera você estivesse ainda aqui. Tudo seria diferente. Nada mais importaria a não ser seguir você, ouvindo as palavras de vida eterna, presenciando curas milagrosas, na certeza de andar perpetuamente na luz do caminho certeiro e anunciando o seu nome onde quer que você fosse. Ah... Você sempre saberia o que fazer e o que dizer, seu cajado em todo tempo me corrigiria e me protegeria. A sua paz me governaria.

Estou cônscio de que você declarou que estaria com os seus até a consumação dos séculos. Mas, embora saiba que você está aqui, há ainda algo que falta a mim, porquanto me vejo muitas vezes perdido, sendo negligente na sua busca, tropeçando em decisões erradas, golpeado pela minha natureza pecaminosa, enfermo, amedrontado, atormentado por um ego que custa a morrer.

Decidi, pois, escrever a você na esperança de que sua promessa se cumpra para mim do mesmo modo que foi para os seus primeiros discípulos, a saber, que a sua proximidade me seja tão real, tão intensamente real que eu jamais sinta a sua falta.

Estenda, Mestre, mais uma vez, eu imploro, a sua mão a mim e conceda graciosamente que eu desfrute da sua companhia viva, como se meus olhos contemplassem a sua face e meus ouvidos, a sua voz.

Seu servo.

10 de agosto de 2016

O Batismo no Espírito Santo: a Questão Hermenêutica

Por Gutierres Fernandes Siqueira (com adaptações). Via Teologia Pentecostal.

A doutrina do Batismo no Espírito Santo com a evidência física e inicial do falar em novas línguas é, certamente, controversa. Há pouquíssimo material em português sobre o assunto. E, praticamente, só dispomos de uma obra de nível acadêmico sobre o tema na perspectiva de pentecostais assembleianos, que é o livro No Poder do Espírito (Editora Vida) de William e Robert Menzies. Obra essa a quem sou devedor, assim como dos livros The Charismatic Theology of St. Luke (Baker Academic) de Roger Stronstad e Reading Luke-Acts in the Pentecostal Tradition (CPT Press) de Martin Mittelstadt.[1]

O objetivo deste texto não é ressaltar diferenças doutrinárias pelo prazer da divergência, longe disso, mas se trata especialmente de uma explicação do que realmente vem a ser a crença pentecostal. Lamentavelmente, o desconhecimento dessa maravilhosa doutrina começa entre os próprios pentecostais. Não é possível nem ao crítico nem ao crente adotar uma doutrina pela via do espantalho. Seja para analisar criticamente ou positivamente, é essencial conhecer a doutrina que professamos.

Quais são os princípios hermenêuticos que sustentam essa doutrina?

Lucas não é meramente um historiador. Ele é um teólogo

A doutrina do Batismo no Espírito Santo se baseia especialmente na literatura lucana, particularmente em Atos dos Apóstolos, mas não somente nela. Os textos em destaque são: Atos 1.4,8; 2.1-4; 8. 12-17; 10. 44-46; 11. 14-16; 15. 7-9; Lucas 24.49. O teólogo anglicano John Sttot, em oposição à doutrina do Batismo no Espírito Santo, popularizou a ideia que tal doutrina não pode se basear em Atos porque o autor faz apenas uma narrativa e não um tratado teológico.  “A doutrina do Espírito Santo não pode ser deduzida de passagens meramente descritivas de Atos”, escreveu Stott[2].

Esse argumento de Stott é inconsistente por alguns motivos: (1) Uma narrativa descritiva não quer dizer falta de conteúdo teológico por parte do autor. Seria o mesmo que dizer que o Evangelho segundo Mateusnão tinha alguma intenção teológica com seu conteúdo. Não só Mateus, mas também Marcos, João e Lucas escreveram os Evangelhos não apenas como historiadores, mas, sobretudo como teólogos. E aí devemos lembrar que originalmente Atos dos Apóstolos é um texto integrado ao Evangelho de Lucas. (2) Se esse princípio fosse levado ao pé da letra parte da eclesiologia perderia sentido, pois o protestantismo sempre leu Atos como uma forma de retomar diretrizes missiológicas, litúrgicas e de organização. (3) Se doutrinas bíblicas fossem elaboradas meramente de textos doutrinários, como as epístolas, não é exagero afirmar que parte do Credo Apostólico poderia ser rejeitado como falso. (4) E até possível entender a preocupação de Stott. De fato, partes da narrativa dos Evangelhos e em Atos não servem como padrão. Exemplo são as curas com sinais externos como cuspe de Jesus, a sombra de Pedro, o lenço de Paulo ou mesmo a venda de todos os bens dos crentes primitivos etc. Mas veja que em todos esses casos o evento miraculoso ocorre apenas uma vez e o evangelista não faz uma ponte com qualquer promessa veterotestamentária. Ainda assim, esses textos narrativos também servem como princípio teológico, pois neles está contida a ideia que Deus pode eventualmente usar meios extraordinários para o impulso de um milagre.

Como brilhante teólogo que era Stott voltou reticentemente atrás em outro livro de 1990. A obra Batismo e Plenitude do Espírito Santo é de 1964. O anglicano escreveu: “Não estou negando que as narrativas históricas têm uma finalidade didática, pois é claro que Lucas era tanto um historiador e um teólogo. Estou afirmando que a finalidade didática de uma narrativa nem sempre é evidente em si mesma e por isso muitas vezes precisa de ajuda interpretativa de outro lugar nas Escrituras”[3]. Por fim, Stott deixa claro que é possível, ainda que não desejável, tomar conclusões doutrinárias a partir de uma narrativa histórica.

Na literatura teológica mais recente não parece ter mais dúvidas que o livro de Atos dos Apóstolos foi escrito com propósitos teológicos, não meramente históricos, exemplo é o livro Introdução ao Novo Testamento de D. A. Carson, Leon Morris e Douglas J. Moo: “Está claro que Lucas escreve com propósitos teológicos”[4]. E David S. Dockey complementa: “Os retratos que temos de Jesus e sua interpretação de Jesus, ainda que históricos, são moldados pelo propósito teológico dos autores dos Evangelhos. A atual crítica redacional tem nos ajudado a ver que os autores dos Evangelhos foram criativos em sua adaptação e comunicação do material de Jesus e sobre ele”[5].  Outro exemplo é do teólogo escocês I. Howard Marshall que escreveu:

Embora enfatizemos que Lucas estava escrevendo uma narrativa histórica acerca dos inícios do cristianismo, e embora rejeitemos o ponto de vista de que escreveu a fim de transmitir um conceito teológico específico, nem por isso devemos deixar de perguntar acerca da natureza do ponto de vista teológico que chega a expressar-se em Atos. Não há dúvida de que Lucas percebe que a história tem importante significado teológico, e de que ressaltou este significado conforme a sua maneira de narrá-la.[6]

Mesmo um professor do Dallas Theological Seminary, uma escola reconhecidamente anticarismática, como Darrell L. Bock reconhece que na narrativa lucana a temática é sobre um revestimento de poder para o serviço:

O dom, em geral, descreve a capacitação de testificar de forma ousada de Jesus. Em algumas ocasiões a expressão descreve, de forma geral, o caráter espiritual do indivíduo. As palavras demonstram que o Espírito é a força motriz por trás da efetividade da Igreja Primitiva. Jesus concedeu o Espírito não apenas para mostrar que a promessa era cumprida, mas também a fim de capacitar a Igreja para realizar sua missão de levar a mensagem do evangelho ao mundo[7].

É fato, uma leitura honesta de Lucas-Atos levará em conta que a estrutura não é jornalística, mas histórico-teológica.

A pneumatologia lucana é diferente da paulina

 Como dito acima essa é uma doutrina baseada especialmente nos escritos de Lucas, e é natural que assim o seja, pois a pneumatologia paulina é essencialmente relacionada ao contexto eclesiológico, ético e moral, enquanto em Lucas é eclesiológico e missional. “Para Lucas a função do Espírito não é, propriamente, a de santificar; em primeiro lugar é a de impulsionar os discípulos para a missão”, escreve Alberto Casalegno[8]. Ou seja, enquanto Paulo apela para como o Espírito Santo transforma o caráter cristão, Lucas, essencialmente, mostra como o Espírito Santo capacita o homem para testemunhar de Deus. O missiólogo David J. Bosch resume essa questão magistralmente e, por favor, aqui vale a longa citação:

Nos escritos de Lucas, o Espírito da missão é também o Espírito de poder (em grego: dynamis). Isso se aplica tanto à missão de Jesus (Lc 4.14; At 10.38) quanto à dos apóstolos (Lc 24.49, At 1.8). Assim, o Espírito é, além disso, não só o iniciador e guia da missão, mas também aquele que capacita para a missão. Isso se manifesta particularmente na ousadia das testemunhas depois de terem sido dotadas do Espírito. Em Atos, Lucas usa muitas vezes os termos parresia e parresiazomai (“intrepidez”; “falar intrepidamente”) (cf. 4.13, 29, 31; 9.27; 13.46; 14.3; 18.26; 19.8). O que se propõe é sempre que isso foi possibilitado pelo poder do Espírito. E o Espírito que torna intrépidos discípulos que antes estavam atemorizados. Através do Espírito, Deus controla a missão (...). A estreita ligação de pneumatologia e missão é a contribuição distintiva de Lucas para o paradigma missionário da igreja incipiente. Nas cartas de Paulo- provavelmente escritas cerca de 30 anos antes de Lucas-Atos- o Espírito é relacionado com a missão de maneira apenas marginal. Por volta do século 2 d. C., a ênfase havia mudado, salientando o Espírito quase exclusivamente como agente de santificação ou como garante da apostolocidade. A Reforma protestante do século 16 tendeu a colocar a ênfase principal na obra do Espírito como aquele que dá testemunho da palavra de Deus e a interpreta. Só no século 20 houve uma redescoberta gradativa do caráter missionário intrínseco do Espírito Santo. Isso aconteceu, entre outras coisas, por causa de um estudo renovado dos escritos de Lucas. Sem dúvida, Lucas não pretendia sugerir que a iniciativa, a orientação e o poder do Espírito na missão se aplicassem apenas ao período sobre o qual ele estava escrevendo. Elas tinham, em sua opinião, validade permanente. Para Lucas, o conceito do Espírito selava a afinidade entre a vontade salvífica universal de Deus, o ministério libertador de Jesus e a missão mundial da igreja.[9]

É um erro corriqueiro na interpretação da Bíblia a ideia que os autores escriturísticos, ao citar uma expressão ou tema comum, estão exatamente tratando do mesmo assunto. Isso não é verdade e há inúmeros exemplos possíveis. A forma como Paulo e Tiago trabalham a doutrina da justificação é um exemplo. A ênfase de cada um é diferente, mas isso não quer dizer contradição, mas complementaridade. Os evangélicos costumam pensar na teologia excessivamente em categorias sistemáticas, o que é prejudicial para o trabalho hermenêutico, logo porque “não devemos nos atrever a sobrevalorizar a unidade das Escrituras a ponto de eliminar as ênfases individuais [...] Isso pode acarretar um uso errado de paralelos de forma que um autor é interpretado com base em outro, resultando num entendimento errôneo”, escreve o hermeneuta Grant R. Osborne. É óbvio que o valor didático da sistemática é inestimável, mas “a própria doutrina da inspiração nos obriga a reconhecer por trás dos textos a personalidade de cada autor sagrado”, para citar novamente Osborne[10].

Aqui não se trata de uma defesa da teologia bíblica em detrimento da teologia sistemática. Precisamos de ambas, mas certamente que o trabalho hermenêutico depende bem mais da primeira. Outro ponto, a teologia bíblica é estruturada em dois princípios: (1) o contexto histórico, ou seja, como aquela mensagem soou para o público original e, também, é (2) necessário ler a Escrituras em seus próprios termos e prestar “atenção especial não somente os conceitos tratados por ela, mas às próprias palavras, ao vocabulário e à terminologia empregada pelos autores bíblicos”[11]. Infelizmente, mesmos os bons teólogos esquecem esse princípio básico de hermenêutica quando tratam da pneumatologia neotestamentária. O protestantismo tradicional faz uma leitura da ação do Espírito Santo apenas a partir de uma perspectiva paulina, desprezando tanto a teologia do Antigo Testamento e a teologia lucana sobre o assunto.

Vejamos um caso comum: a expressão “cheio do Espírito” não pode ser lida da mesma forma na teologia paulina e lucana, a exemplo do que faz o maior parte dos teólogos evangélicos. Os tradicionais concluem que a plenitude do Espírito tem como propósito a santidade, o que é verdade dentro da perspectiva paulina, mas ao mesmo tempo ignoram que na teologia neotestamentária a plenitude do Espírito também é missional, como vemos em Lucas-Atos[12]. Portanto, tomar Efésios 5.18 para interpretar o enchimento do Espírito em Atos é uma “transferência ilegítima de totalidade”. Essa ação se dá quando “os vários significados que uma palavra tem em todos os seus contextos na Bíblia estão todos em uma única passagem”, como explica o teólogo Vern S. Poythress[13][14].

A objeção corrente à doutrina do Batismo no Espírito Santo é um exemplo de como a leitura seletiva de alguns textos neotestamentários estreita a visão integral sobre a ação do Santo Espírito. A verdade, e ainda mais a verdade revelada nas Escrituras, é complexa, rica e multifacetada. A verdade, também, é experimental. Muitas vezes como hermeneutas e exegetas temos dificuldades de assimilar aquilo que é óbvio para a comunidade de crentes. E aqui não se trata de mera oposição entre racionais e pragmáticos, logo porque a falta da própria experiência também nos tenta a ignorar princípios básicos das Escrituras.






[1] Este artigo é o primeiro de uma série sobre a doutrina do Batismo no Espírito Santo.
[2] STOTT, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. 3 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007. p 32. Essa interpretação foi popularizada pelo Stott, mas também está presente em outros teólogos, até mesmo no assembleiano Gordon Donald Fee. Veja: PACKER, James Inn. Na Dinâmica do Espírito. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1991. p 165-193. FEE, Gordon Donald e STUART, Douglas. Entendes o que lês? 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. p 79-97. GRAHAM, Billy. O Poder do Espírito Santo. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 69-91.
[3] STOTT, John. The Spirit, the Church, and the World. 1 ed. Downers Grove: Inter Varssity Press, 1990. p 8.
[4] CARSON, D. A., MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. p 223.
[5] DOCKERY, David S. Hermenêutica Contemporânea à Luz da Igreja Primitiva. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 190.
[6] MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982. p 21.
[7] ZUCK, Roy B. (Ed). Teologia do Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 108.
[8] CASALEGNO, Alberto. Ler os Atos dos Apóstolos: Estudo da Teologia Lucana da Missão. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p 188.
[9] BOSCH, David J. Missão Transformadora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. 4 ed. São Leopoldo: Sinodal e EST, 2014. p 148-149.
[10] OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: Uma Nova Abordagem à Interpretação Bíblica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 34.
[11] KÖSTENBERGER, Andreas J. e PATTERSON, Richard D. Convite à Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2015. p 648.
[12] Exemplo dessa interpretação tradicional pode ser vista em: NICODEMUS, Augustus. Cheios do Espírito. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p 84.
[13] POYTHRESS, Vern S. Teologia Sinfônica: A Validade das Múltiplas Perspectivas em Teologia. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2016. p 86. 
[14]Cabe observar que o livro de Pouthress é um grande auxílio nesse debate, especialmente pelas doze máximas do capítulo sete. O autor magistralmente mostra o perigo de tomar uma parte como o todo na leitura das Escrituras.

3 de agosto de 2016

Fuja e ajude outros a fugir

Uma única faculdade nos foi dada, de resto, nada mais. Nem um til, nem uma vírgula. A cidade não está em nossas mãos, nem comunidade, província, bairro, nação, nada. Muito menos o mundo, o que dirá a galáxia?

O poder de controle é uma ilusão. Nada faz sentido. Defender estandartes é fútil. Lutar em guerras humanas, sacrifício tolo. Lançar-se em grandes projetos, grande paixões, perda de tempo. Salvar o planeta, vazio. Tudo é vão. Nada está sob nosso domínio. Nada, a não ser um único arbítrio: os pés — estes sim estão em nossas mãos. Pois fuja, meu bom amigo, corra, leve seus pés para longe e auxilie seus pares no Caminho. Só nos resta isso e nada mais.

Nasceu na miséria semiárida? Fuja para o solo garoante. No oriente opressor? Vá para o ocidente austral. No sul desafortunado? Corra para a terra setentrional. No norte gélido? Parta para o oriente de Merlion. E sobretudo: nasceu no Reino das Trevas? Fuja para o Reino da Luz. Na travessia, não peleje por causa alguma a não ser a própria fuga sua e dos outros todos que puder ajudar a fugir.

1 de agosto de 2016

Anarco-capitalismo, factível?

Concluí ser infrutífera a doutrina derivada de Mises que prega a extinção do Estado em favor do anarco-capitalismo. O problema não está nos argumentos miseanos, mas numa proposição de que estou plenamente convencido: a existência estatal é inevitável.

É apenas realismo, seja para melhor ou pior, os governos estão aí para ficar e não vão se dissolver.

A história também não favorece uma anarco-concepção. Os agrupamentos humanos, até onde sabemos, sempre apresentaram elementos, ainda que rudimentares, de uma ordem governamental. Cogito até que isso seja inerente à raça humana quando em sociedade.

Assim, me soa utópica a defesa do anarco-capitalismo. Não é esse o caminho a ser trilhado, é total perda de tempo.

Não haveria, portanto, o que se fazer a não ser continuar a combater o agigantamento estatal — até que o mundo acabe.

23 de julho de 2016

Me enganei. Até mesmo a historiografia me inquieta, fico desejando reescrevê-la.

21 de julho de 2016

Notas sobre como muita miséria pode ser evitada

Há algo comum a várias das crises e catástrofes humanas. Elas tem uma mesma causa: manipulação governamental da moeda.

O sistema monetário é na nossa época a base econômica de todo o planeta terra (sem exceções). Ao ruir o alicerce, o resultado não é outro senão colapso sistêmico.

A queda do Império Romano é possivelmente o primeiro grande exemplo na história. No terceiro século, sucessivas manobras inflacionárias dos césares corroeram a moeda, levando ao declínio econômico.

Assim também foi a crise brasileira conhecida como Encilhamento (1889), a Grande Depressão (1929), a Crise do Petróleo (1973), as crises de hiperinflação no Brasil e nos países latino-americanos na década de 80, até a recente Crise do Subprime em 2008. Mesmo a Segunda Guerra Mundial teve por uma de suas causas a Crise de 1929. Esses são só alguns dos casos, a lista é extensa.

A ideia de fabricar dinheiro sem lastro e jogar na praça soa maravilhosa ao ministro das finanças. Parece uma maneira mágica de pagar as dívidas de um governo gastador e ao mesmo tempo — acredita-se — levar o país ao crescimento econômico. O resultado é sempre — sublinhe-se — exatamente o mesmo: desgraça geral.

O Encilhamento engendrado por Ruy Barbosa era uma arranjo que parecia genial, crédito fácil para industrialização garantido por uma emissão monetária livre. Consequência: a bolha de crédito estoura, dá-se crise econômica e empobrecimento do povo.

A Grande Depressão, mesma coisa. Originou-se da expansão monetária e creditícia praticada pelo Fed (Banco Central americano) nos anos anteriores, e se prolongou pelas sucessivas falhas do governo em lidar com a crise nos anos subsequentes[1]. Dessa vez, os efeitos se sentirem em escala global para desespero dos povos.

A Primeira Crise do Petróleo foi fortemente causada pelo chamado Choque Nixon, isto é, a decisão do então presidente americano Richard Nixon de romper com o padrão-ouro em 1971. A partir de então a moeda americana foi se desvalorizando, contribuindo para a OPEP decidir aumentar o preço do barril do petróleo em 1973.

Nos anos que se seguiram, o governo americano se sentiu livre para passar cheques sem fundos ao povo, resultando num surto inflacionário nos EUA. Por conta disso, Em 1979, Paul Vocker, presidente do Fed, subiu os juros para conter a escalada de preços. Como consequência, o crédito internacional se contraiu, e os governos latino-americanos que haviam tomado empréstimos irresponsáveis se viram obrigados a imprimir dinheiro para saldar os débitos internos e externos. Isso resultou na elevação da pobreza e da miséria no Brasil e na Argentina, entre outros.

Após Volcker, o Fed, com certa engenharia financeira, conseguiu morfinizar o mercado e evitar a inflação direta advinda da emissão contínua de dólares. Tal foi possivelmente uma das causas da Crise da Bolha Ponto-com (2000). Para tentar combatê-la, o presidente do Fed, Alan Greenspan, numa medida heterodoxa, foi cortando os juros até patamares reais negativos, encharcando o sistema creditício. Junto a isso, o governo americano vinha implementando uma política tresloucada que incentivava o crédito irresponsável para compra de imóveis. A enxurrada monetária, somada ao crédito imobiliário libertino, fez com que os preços dos imóveis subissem artificialmente às alturas, o que distorceu o mercado imobiliário. Da euforia financeira criou-se o comércio dos chamados ativos podres. E eis que a história se repete[2]: em 2008 estoura a bolha de crédito, estava deflagrada a Crise do Subprime.

Não é sensato ignorar 1700 anos de história.

Vale registrar que dado o tamanho da crise de 2008, o Fed realizou uma expansão monetária de proporções inauditas na história do dólar: a base monetário quadruplicou num curtíssimo período (2008-2015)[3], indo de menos de 1 trilhão de dólares para cerca de 4 trilhões. Foi além de todo ideário econômico. Mas não me arisco a dizer se o Fed agiu bem ou não, voltamos à mesma questão de 1929[1]. As consequências desse capítulo ainda estão por se revelar.

Interessante registrar também o caso da Suíça: há duzentos anos o governo tem mantido a estabilidade monetária.

______________
[1] Há divergências sobre o que o governo americano deveria fazer acerca da crise de 1929, fazer aumentar a oferta monetária (ainda que artificialmente) ou simplesmente deixá-la contrair-se e depois retornar sozinha. O consenso ortodoxo é de que a crise foi puxada pela própria ação governamental de expansão monetária nos anos anteriores, mas a pergunta que se faz é como deve proceder o governo imediatamente após a detonação da bomba que ele mesmo armou.

[2] É claro que é bem mais fácil identificar o padrão histórico quando se olha em retrospectiva. Na época, quase ninguém enxergou o precipício. Euforias financeiras fazem todo mundo perder a razão.

[3] Há quem anote que o crescimento da base monetária nesse período não representou diretamente uma expansão monetária, porque, numa medida também inédita, o Fed não imprimiu todo o dinheiro, mas apenas criou eletronicamente grande parte dele e ofereceu aos bancos pagamento de juros sobre o montante que fosse mantido no Fed.

13 de julho de 2016

O passado é imutável. Estudá-lo não é tão doloroso. Já o presente é uma tormenta da qual não consigo me livrar, malgrado minhas tentativas de me tornar um tanto estoico e aceitar resignado o destino.

Acredito em destino? Tanto quanto no livre-arbítrio, paradoxalmente.

12 de julho de 2016

A língua jamais deveria estar sujeita a um controle estatal.

P.S. A primeira vez que alguém tem contato com essa ideia, pensa logo que a língua viraria uma bagunça com cada um falando de qualquer jeito. Bem, se o indivíduo quiser falar e escrever de um modo em que ninguém vá conseguir entendê-lo, é problema dele. O que ocorre factualmente é que todo mundo se comunica usando a língua em que é compreendido. E nos 6 mil anos de história humana, sempre nos entendemos muito bem com nossos pares sem nenhum governo se intrometendo na conversa alheia. Somente nos últimos séculos é que ocorreu de um grupelho de "iluminados" se declarar dono da língua do povo.

29 de junho de 2016

O Brexit, isto é, a recente debandada do Reino Unido mostrou o que se tornou a União Europeia. Os "donos" da Europa querem agora retaliar os britânicos. Pior que um Estado grande é um aparato supraestatal. É certo que o acordo de livre comércio era mutuamente benéfico, mas a união governamental havia criado um monstro sedento por dominar o mundo europeu.

1 de junho de 2016

24 de maio de 2016

A Cruz e o Punhal


Entre neste LINK para baixar o eBook do livro A Cruz e o Punhal de David Wilkerson, em formato ePub (para celulares e tablets).

Se pretende ler num dispositivo Android, bastar baixar o arquivo no seu celular e mandar abri-lo. O Android deverá executar automaticamente o aplicativo Play Livros.

5 de maio de 2016

Ebook de "Avivamento na África do Sul"

Entre neste LINK, para fazer o download do livro Avivamento Na África do Sul: Uma Obra do Espírito Santo Entre os Zulus, por Erlon Stegen.

Trata-se de uma adaptação que fiz para o formato ePub (para celular e tablet) do material originalmente disponível no site Monergismo.

Se pretende ler num dispositivo Android, bastar baixar o arquivo no seu celular e mandar abri-lo. O Android deverá executar automaticamente o aplicativo Play Livros.

Caso não funcione, um método alternativo é baixar o arquivo no computador, entrar no site do Google Play Livros, clicar em Fazer upload de arquivo e enviar o arquivo que você baixou. Feito isso, o seu celular deverá começar a baixar automaticamente o eBook. Por fim, abra o aplicativo Play Livros.

3 de maio de 2016

Tenho a impressão de que o estudo do livro de Hebreus tem sido um tanto preterido. Na certa Hebreus carece de uma atenção maior que aquela que temos dado. Há ali tesouros guardados por Deus para nós.

2 de maio de 2016

Bíblia ACF para Android

Eis um bom aplicativo, e gratuito, da Bíblia Almeida Corrigida e Fiel: Bíblia Offline.

11 de abril de 2016

O pensamento deste século diz para você ser autêntico, para você se aceitar, ser você mesmo. O Mestre da Galileia, no entanto, disse para você negar-se a si mesmo, renunciar a sua vontade, crucificar suas paixões, perder sua vida.

26 de março de 2016

Os caminhos que levam ao patriotismo percorrem o ego humano.

10 de março de 2016

Dom ou Ministério

Entendo que não há diferença substancial entre dom e ministério. Veja o que diz a Escritura:

Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo.
Há diferentes tipos de ministérios, mas o Senhor é o mesmo.
Há diferentes formas de atuação, mas é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos.
A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum.
(1 Coríntios 12.4-7).

Note que Paulo, ao falar em "dons", "ministérios", "formas de atuação", está explicando que tudo vem do mesmo Deus triúno (Espírito, Senhor e Deus). E para que não ficasse repetitivo, ele se valeu de um recurso linguístico empregando expressões semelhantes que se referem à mesma ideia. Por isso ele conclui englobando tudo como "manifestação do Espírito".

9 de março de 2016

E para medicar o doente, Nelson Barbosa e Dilma estão prescrevendo mais veneno. Enquanto não fazem nada para barrar o aumento brutal da dívida governamental, estão trabalhando para estimular o crédito na praça, ou seja, estão se afundando naquilo que levou o país à bancarrota, majorando a ingerência governamental na economia. E pior, às custas de mais dívidas. Governos socialistas  acreditam que a solução para crises é mais governo (detalhe: foram eles mesmos que causaram a crise). Como disse alguém certa vez: insanidade é continuar a fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes. Ora, esse filme de terror não vai terminar enquanto os petistas fizerem mais do mesmo.

4 de março de 2016

Deixando de lado o politicamente correto, por que algumas línguas nos soam mais belas que outras?

25 de fevereiro de 2016

Persianas e calhas nunca funcionam direito. Mas todo mundo continua instalando.

24 de fevereiro de 2016

Em 2011 a Hillsong deixou o estilo Integrity Music (com metais de sopro) e passou a adotar um estilo que era prata da casa, o da Hillsong United (aquele em que duas ou três guitarras são dedilhadas durante toda a execução da música). Curiosamente a United passou a fazer um pop gravado em estúdio desde então.

23 de fevereiro de 2016

Calvinismo ou Arminianismo, Quem Está Certo?


Esse embate inquietou a minha alma por um longo tempo até eu concluir que é preciso aceitar que há base bíblica para as duas proposições. Ambas as doutrinas estão, a meu ver, certas.

Cada corrente, entretanto, ao confrontar um texto bíblico que favorece a doutrina oposta, usa de artifícios interpretativos para afastar o sentido natural. Vou dar dois pequenos exemplos, começando por um texto que favorece o lado arminiano:

Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram. (Mt 23.37, NVI).

Note que o sentido natural do texto pende para o arbítrio humano, já que Jesus usa o termo "querer". Por isso, para afastar esse "arminianismo", a corrente calvinista vai explicar, dentre outras coisas, que ninguém pode "querer" a Cristo, porque a raça humana está totalmente corrompida pelo pecado, de modo que a fé só poderia ser manifestada se aqueles judeus de Jerusalém tivessem sido eleitos previamente. Assim, eles não quiseram porque não estavam predestinados a isso.

Eis o problema, na prática estão afirmando que o texto não diz o que diz. O sentido natural de "querer" é contornado para dar lugar ao sentido de que o "querer" não é "querer" realmente. Ora, Jesus, ao falar daquela maneira, está insinuando justamente que existia contingência nesse querer.

Agora vamos a um texto que favorece o calvinismo:

Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna. (At 13.48, ARA).

Qual o sentido natural da passagem? Que aqueles que vieram a crer o fizeram porque estavam destinados a isso. Simples assim. O texto insinua que exista um fatalismo no que concerne a soteriologia. Mas os arminianos clássicos diriam que Deus já os havia predestinado a tanto em razão da pré-ciência dele. Isto é, Deus já sabendo de antemão que eles não iriam rejeitar a graça, já os havia destinado a crer.

Está aí o mesmo problema. Quando alguém diz que essa destinação decorre do pré-conhecimento divino, estão declarando que o texto não está dizendo o que está dizendo. É um artifício para negar o que figura ser um determinismo de eventos.

Portanto, de um lado, a Escritura dá a entender que a salvação advém de uma escolha da parte de Deus que executa a predestinação individual sem levar em conta nada no homem, nisso incluso a fé ou qualquer resposta humana à graça. Ou, nas palavras calvinísticas, a eleição é incondicional. Até mesmo porque, argumentam, que a possibilidade de livre-arbítrio daria à pessoa participação na salvação e que isso daria a ela algo de que se gloriar.

De outro lado, contudo, a Bíblia também dá a entender que a salvação é concedida para aqueles que respondem com fé à operação graciosa do Espírito. Afirmam os arminianos que aquele que é tocado pela graça consegue naquele momento exercer o livre-arbítrio dele e então pode aceitar ou rejeitar a Mensagem da Cruz. A eleição, argumentam, seria condicional, ou seja, estaria condicionada à fé.

Os dois lados têm perfeito fundamento bíblico -- na minha humilde visão.

Não seria, entretanto, um paradoxo ter a ambos como proposições igualmente verdadeiras? É um aparente paradoxo. Eu diria que é um mistério. Um mistério que ainda não pode ser inteiramente compreendido, assim como é um mistério a triunidade de Deus. De outro modo, como compreender o enunciado matemático de que duas retas paralelas se encontram no infinito?

Por isso acredito que há um mistério no que diz respeito à salvação: ela envolve eleição e fé.

22 de fevereiro de 2016

Estou crendo que vai vir sobre nós um novo avivamento, semelhante ou maior que aquele que ocorreu em 1953 e 54. Talvez, possivelmente, quem sabe, uma pontinha aqui e ali já esteja acontecendo em lugares diferentes. Se isso for verdade, nosso chão vai ser abalado.

19 de fevereiro de 2016

A MULTIPLICIDIDADE DE DENOMINAÇÕES CRISTÃS

Direto ao ponto: isso é bom.

A cada dia me convenço mais disso. Estou propenso a acreditar que o plano de Deus era justamente esse, que quando se consolidasse o cristianismo pelos reformadores, houvesse variados ministérios eclesiásticos ao redor do mundo. Eu mesmo já me juntei a igrejas de organização congregacional, presbiterial e episcopal. E fui edificado em cada uma delas. Vi as virtudes e dificuldades de cada uma, e cada qual conseguiu certo avanço na propagação do Evangelho em áreas diferentes e sobre grupos diferentes.

É certo, de outro lado, que essa diversidade denominacional traz também problemas, como aparecimento de grupos sectários, ou de epíscopos corrompidos ou daqueles que dão mal testemunho da conduta cristã. Entretanto, essas coisas já estavam, por assim dizer, previstas. Jesus mesmo já tinha nos avisado de que haveria lobos atacando as ovelhas e que, nas palavras dele, "era necessário que os escândalos viessem".

(Adendo: Os apóstolos também já haviam nos precavido de que surgiriam falsos profetas fazendo que muitos acreditassem neles, tal como se levantaram, por exemplo, Joseph Smith, Helen White, a Torre de Vigia, Reverendo Moon etc).

Devemos nos lembrar que o Reino de Deus pertence a Deus -- e não a nós homens. É o próprio Yawé que guia a Igreja dele. E Deus em Cristo decretou nas Escrituras que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja. Ora, se Deus tencionasse impedir o aparecimento daqueles que difamam o Caminho, assim teria sido. De modo que está absolutamente fora do controle dos homens o surgimento ou não de igrejas autodenominadas cristãs que apresentam base doutrinária falha ou mesmo ensinos heréticos.

Tais igrejas, contudo, jamais anulam o Reino de Deus e nem impedem que obreiros sérios sigam anunciando o Evangelho, que é a missão de obedecer aos mandamentos de Cristo Jesus e ensinar outros a fazer o mesmo.

E a realização dessa grande tarefa se torna muito mais versátil quando há descentralização dos centros evangelísticos, para o que coopera em grande parte o fato de haver múltiplas denominações (realmente) cristãs.

17 de fevereiro de 2016

Se de fato Jesus é o Filho de Deus, não haveria fato no mundo que fosse mais importante que esse. Muda tudo.

29 de janeiro de 2016

Quando a batalha não é nossa

Então o Espírito de Yawé veio sobre Jaaziel [...]. Ele disse:

"Escutem, todos os que vivem em Judá e em Jerusalém e o rei Josafá! Assim diz Yawé a vocês: ‘Não tenham medo nem fiquem desanimados por causa desse exército enorme. Pois a batalha não é de vocês, mas de Deus. Amanhã, desçam contra eles. Eles virão pela subida de Ziz, e vocês os encontrarão no fim do vale, em frente do deserto de Jeruel. Vocês não precisarão lutar nessa batalha. Tomem suas posições, permaneçam firmes e vejam o livramento que Yawé dará a vocês, ó Judá, ó Jerusalém. Não tenham medo nem se desanimem. Saiam para enfrentá-los amanhã, e Yawé estará com vocês’".

Josafá se prostrou, rosto em terra, e todo o povo de Judá e de Jerusalém prostrou-se em adoração perante Yawé.

2 Crônicas 20.14-18

27 de janeiro de 2016

O Brasil quebrou. A pobreza e a miséria estão agora voltando em ritmo acelerado. A criminalidade, aumentando.

Particularmente eu esperava uma recessão em 2015, mas não essa depressão com tamanho endividamento governamental.

Tenho amigos padecendo porque não encontram emprego.

Para aqueles que tiverem oportunidade de mudar de país, é bom considerar essa hipótese.

Esse é o momento de clamar a Deus.

20 de janeiro de 2016

O Tal 7 a 1

Naquele fatídico dia o Brasil ficou como de luto, num misto de tristeza e raiva. Comigo não foi diferente. Mas eis que mais de um ano depois me veio uma luz: aquele resultado foi muito bom. Ele feriu de morte meu orgulho pelo futebol brasileiro. Espetáculo futebolístico é secundário, prescindível. Amor à pátria, bobagem. Tudo isso é vaidade, é correr atrás do vento.

18 de janeiro de 2016

Eles buscaram a Deus com a melhor disposição. Ele deixou que o encontrassem e concedeu a eles paz em suas fronteiras. (2Cr 15.15b).

14 de janeiro de 2016

Acerca da Insegurança Linguística Brasileira

Não estou à procura de culpados para isso. Não creio que haja. Essa falta de segurança na língua é um fenômeno aparentemente inexplicável que foi tomando lugar em nossas terras ao longo da história.

A coisa começou talvez lá trás. A nossa herança da língua portuguesa parece diferente das demais línguas dos colonizadores. Ora, por que os hispânicos das Américas se entendem facilmente com os espanhóis, mas nós brasileiros temos dificuldade de compreender um português (de Portugal) falando? Por que canadenses, americanos, ingleses e australianos se comunicam sem maiores problemas? Por que temos mais facilidade de compreender a fala de um angolano que de um português?

Mistério.

Um dos resultados disso é que o legado gramático-normativo de Portugal nos soa, com o perdão da hipérbole, como se fosse de outra língua que não a nossa.

Certa vez vi um estudioso de linguística dizer que foram os portugueses que tiveram uma mudança expressiva na língua deles a partir do século XVIII, mudança maior que a que nós brasileiros produzimos durante nossa história. Não sei isso é procedente, e não sei por que cargas d'água isso teria acontecido. Infelizmente não encontrei na internet esse artigo para postar aqui.

Eis o problema: hoje os brasileiros dispõe de três ou quatros maneiras diferentes de falar a mesma coisa. E num contexto um pouco mais formal ficamos inseguros na escolha do caminho linguístico adequado. Além disso, o fato de a gramática-normativa usada no Brasil ser muito distante da realidade costuma causar a sensação de que nunca estamos manejando bem a língua, o que empurra muitos para a prática da hipercorreção[1].

Alguém, contudo, poderia objetar que isso ocorre também nas outras línguas pan-americanas, e eu concordo. Ocorre que — segundo minhas observações empíricas — os falantes do espanhol e inglês (e possivelmente francês) não tem essa dificuldade de maneira tão acentuada quanto nós.

Pois aqui temos: o modo de falar pronormativo (ensinado pela gramática normativa), o modo culto (empregado pelos indivíduos com boa instrução escolar), o modo informal (das conversas informais de todo brasileiro, seja letrado ou não) e o modo desprestigiado (usado por aqueles com baixa escolaridade). Eventualmente há mais outras formas, mas essas talvez sejam as principais.

Volto a frisar, estou ciente de que algo semelhante a esse também se dá nos demais idiomas falados nas Américas. Minha tese é que esse fenômeno é mais intenso no Brasil e que temos um embaraço um tanto maior para optar pela maneira adequada de falar, o que nos deixa com uma certa insegurança.

Vou apresentar alguns exemplos práticos e simples.

Tomemos a seguinte frase dita na forma pronormativa: "você é minha princesa, eu a amo". Numa linguagem culta (mas paranormativa) diríamos, "eu amo você". Corriqueiramente seria, "você é minha princesa, eu te amo" (igualmente paranormativo). Assim também podemos usar, "eu lhe digo", "eu digo a você", "eu digo pra você" e "eu te digo".

Aliás, a adoção que nós tupiniquins fizemos do "você" ao lado do "tu" criou um mundo de combinações entre a terceira e a segunda pessoa. Por exemplo, se alguém me diz, "João pegou seu carro e saiu", eu fico na dúvida, o carro é meu ou do próprio João? Para evitar essa ambiguidade os brasileiros optam pelo uso de "dele" para indicar a terceira pessoa. Assim, usualmente se diria, "João pegou o carro dele e saiu", deixando claro que o carro é do João. No palavrório formal há uma tendência ao emprego de "seu" para a terceira pessoa, mas em qualquer conversa normal só usaríamos o "dele".

O termo "dele", contudo, não consegue ser um substituto perfeito para "seu" em todos os casos. O texto bíblico de Eclesiastes, por exemplo, que diz "tudo tem seu tempo" soaria estranho se fosse dito "tudo tem o tempo dele" — dele quem? É certo que podemos escrever "tudo tem o próprio tempo", todavia,  o "próprio" exerce uma função enfática, por isso também não é um substituto perfeito para o "seu" na terceira pessoa.

Assim, quando se trata de pronome possessivo na terceira pessoa temos que usar tanto o "dele" quanto o "seu".

Para complicar, o termo "seu" na maioria das vezes é usado para se referir à segunda pessoa, como sinônimo de "teu". Por exemplo, "você pode ir ao banco porque já depositei o seu/teu dinheiro". E no caso plural, "vocês", utilizamos tanto "seus" quanto "de vocês": "os carros de vocês estão aqui", "os seus carros estão aqui".

Por conta disso, transitamos com certa hesitação entre "seu", "teu", "dele" e "próprio". E no plural, "seu", "seus", "deles" e ainda "de vocês".

Além desses, vale citar o caso do surgimento e consagração da forma "a gente" ao lado de "nós", sendo este último preferido em falas mais solenes. De semelhante maneira, a locução "a gente" não consegue ainda ser um substituto perfeito para "nós". Como na oração "nós três trabalhamos aqui", que não pode ser dita "a gente três trabalha aqui". Os pronomes possessivos também se cruzam, oscilam entre "nosso" e "da gente". "O nosso carro quebrou" ou "o carro da gente quebrou".

(Vale constar, o tal de "vós" é um arcaísmo há muito sepultado. Só existe nos livros escolares. Deveria ser abolido.)

Há também duas formas usuais da conjugação do imperativo. Podemos falar "ande pela calçada" ou "anda pela calçada". A primeira maneira é favorecida em contextos formais, mas ainda assim é comum se vaguear errante entre um e outro.

E quanto aos pronomes oblíquos? "Eu a vi", "eu vi ela", "ele já nos falou isso", "ele já falou isso pra nós", "ele já falou isso pra gente", dentre outros.

Sem contar as intermináveis discussões sobre colocação pronominal. Suspeito que nem os gramáticos entrem num acordo sobre isso. Veja-se, "diga-me a verdade", "me diga a verdade", "parece-me que sim", "me parece que sim", "trata-se disso", "se trata disso", etc.

Talvez o português brasileiro ainda esteja se consolidando. Com o tempo a língua vai encontrar maneiras de unificar os mecanismos linguísticos. Não podemos, todavia, ignorar o fato de que o discurso dos gramáticos também influencia a língua, e eles ajudariam se abandonassem formas antigas em favor daquelas amplamente aceitas na língua falada. De qualquer modo, como eu disse no começo, não os culpo (ou não culpo eles) por nossa insegurança linguística. Isso apenas aconteceu, sem causas aparentes.

_________
[1] Fenômeno que se produz quando o falante estranha, e interpreta como incorreta, uma forma correta da língua e, em consequência, acaba trocando-a por uma outra forma que ele considera culta; nessa busca excessiva de correção (seja na fonética: mantor por mantô, seja na acentuação: rúbrica por rubrica, seja na escolha do vocabulário: genitora por mãe), nota-se em geral o temor do falante de revelar uma classe de origem socialmente discriminada. (Dicionário Houaiss).

7 de janeiro de 2016

Insegurança Linguística

Nos meus laboratórios secretos tenho desenvolvido secretamente uma tese secreta: nós brasileiros sofremos de uma espécie de insegurança linguística ao falar em contextos mais formais.