28 de janeiro de 2008

Desgoverno Econômico


Tradução livre do artigo de Mark Shuttleworth intitulado "Economic oversteering", publicado em 23 de Janeiro de 2008.


Ontem, vimos o mais extraordinária fracasso de liderança econômica dos últimos anos, quando a Reserva Federal dos EUA apertou o botão da "morfina de emergência" e cortou os juros da Reserva Federal em 0,75%. Isso não irá ajudar.

Estes são tempos de desafios extremos, e até agora, a Fed dos EUA sob Bernanke, tem se encontrado em falta. Os historiadores podem apontar bem para as portas de Alan Greenspan a verdadeira culpa do atual abalo, foi ele quem iniciou o uso da morfina para dopar a dor econômica. Mas certamente ainda se confiará um certo grau de deferência pela sua prescrição. Afinal, durante o seu mandato na Fed, os líderes econômicos ficaram convencidos de que a solução para abalo de mercado é garantir que o sistema financeiro tenha acesso a dinheiro fácil.Isso se provou eficaz a curto prazo. Quando o LTCM esteve para explodir (investimentos privados impulsionam-se dramaticamente sob o mando de teoristas financeiros ganhadores de nobéis que apostaram numa coisa tida por segura mas que não se saiu exatamente como esperado) Greenspan engenhou uma tranqüilização calculada nos negócios. Quando a bolha ponto-com estourou, Greenspan manteve o sistema financeiro aceso cortando juros a tal ponto que chegaram a estar, por um período significativo, a patamares reais negativos.

Um percentual de juros reais negativos significa que somos efetivamente pagos para fazermos empréstimos. Isso pode soar bom, mas como você se sentiria se eu usasse as palavras "pagos para dar uns tapas numa boa cocaína"? O problema subjacente é que as pessoas ficaram acostumadas a altas taxas de retorno e não quiseram aceitar que as reais taxas de retorno nos EUA estavam baixando. Ficaram acostumadas a dinheiro fácil, e Greenspan garantiu que permaneceria acessível aquele dinheiro fácil num momento em que as pessoas tinham demonstrado pouca habilidade para investi-lo bem.Juros baixos dão às pessoas um incentivo para investir em ações, mesmo que não estejam rendendo muito. O preço das referidas ações se recupera rapidamente, e o efeito foi amplificado pelo fato de que juros baixos aumentam a rentabibilidade corporativa. Isso foi o então chamado "pouso suave" -- desastre evitado. Ele certamente sabia dos riscos, mas o grande sinal de alerta que provavelmente convenceu Greenspan a fazer voltar aos juros normais foi omitido: inflação. Juros baixos, e especialmente juros negativos, historicamente sempre resultaram em inflação; e ele os manteve baixos porque não havia sinais de inflação. Pareceu como se os EUA tivessem entrado numa nova era onde a correlação entre juros e inflação não mais existisse. Explicou-se o fato dizendo que os EUA estavam aumentando sua produção drasticamente (aumentos de produção são como um remédio anti-inflação). Agora, em retrospectiva, parece que a verdadeira razão para a ausência de inflação foi que os chineses aumentaram dramaticamente a produção deles, e que os consumidores americanos estavam gastando tanto em produtos chineses que a produção chinesa se elevou (e não a produção americana) o que manteve baixos os preços nos EUA.Quando a tecnologia saiu da ebulição (e as pessoas deveriam ter usado a pausa para limpar seus negócios), Greenspan facilitou para que as pessoas se colocassem numa posição pior. Dinheiro fácil fez os preços das ações de mercado artificialmente altos, de maneira que os investidores de mercado se sentiram ricos. Pior, dinheiro fácil faz os preços imobiliários artificialmente altos (até cerca de 45%), de modo que todos se sentiram mais ricos do que tinham planejado ou esperado.

Para piorar as coisas, uma série de inovações financeiras criaram toda uma indústria concebida para ajudar as pessoas a voltarem à dívida de seus imóveis. Eu lembro de assistir TV nos EUA e ficar impressionado com o número de propagandas para "remoção de casa própria". Eles faziam isso soar como se o transformar seu principal ativo financeiro pessoal -- sua casa quitada -- em um caixa automático fosse uma coisa boa. Em realidade, foi uma bom meio para gastar toda a sua reserva principal de riqueza. E com preços imobiliários inflados, foi uma maneira de gastar um dinheiro que você de maneira alguma possuía; um modo conveniente de entrar num profundo abismo de dívida familiar. O resultado? A americana média possuía menos de sua casa hoje que ela o fazia há trinta anos atrás -- 55% contra 68%.

Dinheiro fácil torna as pessoas mais pobres. A companhia com os mais irritantes anúncios, Ditech (e eu me sinto envergonhado por contribuir para o ranking do seu website com a menção, talvez isso ajude no feedback de seus consumidores em vez de 'linkar'), tem um slogan que diz "pessoas são espertas" e um modelo de negócios baseado na idéia de que "pessoas são otárias". Seu produto "mais popular" me parece sob medida para facilmente tornar uma casa própria -- um ativo -- em um novo débito.

Por que Greenspan fez isso? Acho que ele acreditou sinceramente que havia alguma coisa diferente no mundo moderno que havia alterado as leis da gravidade econômica. Suspeito que ele não mais pense dessa forma.Mas Greenspan não é mais o presidente da Fed. Ben Bernanke deu o sinal ontem, e como ele vimos o seu naipe.

Greenspan agiu com cautela, logicamente, e essencialmente com prudência. Muitos anos de dados econômicos anômolos são uma base razoável para pensar que as regras têm evoluído. Você teria que ter uma espécie suíça (700 anos de estabilidade) ou chinesa ("nós pensamos que é muito cedo para dizer se Revolução Francesa foi uma boa idéia") para adotar teorias econômicas que contradizem fatos de há tempos. Greenspan cometeu um erro, e por uma geração haverá sérias conseqüências para os EUA, mas ele teve razões para aquele erro. Bernanke apenas deu o sinal e, a despeito de ter mais experiência, entrou em pânico.

Há agora intensos debates econômicos para tudo que está ocorrendo. Temos entendido quase claramente o que está acontecendo no mundo. O vento de deflação oriental tem sido identificado. Sabemos que não há uma produção miraculosa nos EUA, e nenhuma mudança nas leis da física ou da economia. Assim, sabemos que o paciente americano é viciado na morfina do dinheiro fácil, remédio que foi prescrito pelas boas intenções do Dr. Greenspan, e que tem nos 7 últimos anos feito o paciente mais doente (e não menos). Mais morfina hoje constitui uma negligência, não inovação econômica. Temos ciência das conseqüências da morfina -- preços acionários subirão artificialmente (4% ontem, nas manchetes), preços imobiliários continuarão a declinar, as empresas irão demorar mais para adimplir com seus empréstimos.

Bernanke talvez esteja na esperança de fazer o que Greenspan fez -- aposentar-se antes que o vício se torne totalmente patente. Tarde demais. Enquanto a Fed não está claramente disposta a admiti-lo, os mercados já tem evidentemente formado a sua própria opinião de que o prognóstico não é bom. Eles são espertos o suficiente para ver que tudo o que Bernanke tem feito é cobrir os sintomas do mal-estar, e muitos estão usando o alívio temporário da dor para migrar para territórios mais seguros. Espero que qualquer alívio seja breve, as recuperações de mercado irão minguar, o corre-corre tem sido adiado mas não evitado.

Eu iniciei descrevendo as ações da Fed como um fracasso na liderança econômica. Alguns têm sorte suficiente para ir de baixo do ciclo para cima dele -- esses assumem quando as coisas estão miseravelmente ruins e podem simplesmente torná-las melhor. Eles parecem heróis, mesmo se seus vudus não tiverem, por assim dizer, mojo. Outros são menos afortunados, ficam a mercê do ativo de pico, como Bernake que está nessa última categoria. Ele precisa apelar para a melhor da industrialização americana -- uma tradicional vontade de trabalhar duro, ser esperto, e aceitar as conseqüências da recusa a fazê-lo. Ele precisa liderar sob as mais difíceis circunstâncias. Mas isso é que é liderança.

Para a sorte de Bernanke, acredita-se amplamente que a independência do banco central é a única maneira de governar a economia. Tal independência dá a Bernanke o direito de divergir dos líderes políticos se necessário. Dado os recentes anúncios da Casa Branca -- mais morfina, mais endividamento para o país mais endividado -- a administração Bush não tem peito para um verdadeiro programa de reabilitação. Bernanke terá que liderar sem apoio político, uma tarefa realmente difícil. Nossos maiores e mais memoráveis líderes são aqueles que lideram através de tempos de dificuldade; a recíproca é verdadeira quanto a fracassos de liderança. Apaziguamento, ou reabilitação. Chamberlain, ou Churchill. Até agora, Chamberlain.